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Partebilhas

O conteúdo deste blogue é da responsabilidade de MANUEL PERALTA GODINHO E CUNHA e pode ser reproduzido noutros sítios que não pertençam ao autor porque o importante é a divulgação da tauromaquia.

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O Leão do Alentejo

José Trincheira - TTE-2017.jpg

Em 1935 nasceu um menino que quis ser toureiro. Terá nascido em Espanha, ou talvez na vila alentejana de Borba nunca o soube bem, nunca lhe explicaram completamente, mas provavelmente em Espanha onde os seus pais trabalhavam sazonalmente no campo, tendo sido registado em Portugal uns dias depois e com o nome de José.

Muito novo foi viver com os pais e irmãos para Vila Viçosa e muito cedo o José começou com a fixa ideia de ser toureiro. Ele que nunca gostou de ir à escola, com todas as dificuldades de um rapazinho oriundo de uma família com escassos recursos, faltava às aulas e preferia apascentar o gado, trabalhar no campo e enfrentar vacas bravas sempre que possível.

Em 1947 e sem ter possibilidade de comprar o bilhete, conseguiu entrar na Praça de Toiros de Vila Viçosa e assistir à corrida onde foi colhido de morte o valoroso matador José González López “Carnicerito de México”. Nunca se esqueceu dessa trágica imagem…O toureiro mexicano gravemente ferido a ser levado para o hospital e a cavaleira peruana Conchita Citrón correndo atrás, preocupada, prevendo o pior.

Aparecia nos “tentaderos” sem ser convidado e uma ou outra vez teve a possibilidade de dar uns passes, com improvisada “muleta” a vacas que ficaram de refugo e que os toureiros convidados não queriam lidar. Fez-se notar.

Foi ao campo durante a noite em algumas ganadarias. A pé e saltando as cercas. Chamou alguns toiros. Provocou. Citou. Voltou a citar. Por sorte os toiros nunca se arrancaram, não vinham à voz e fugiam. Não conseguiu tourear ao luar…

Auxiliado por alguns amigos e principalmente por António Pombeiro, um grande aficionado de Vila Viçosa que o recomendou para a escola de toureio da Golegã do mestre Patrício Cecílio mas onde não foi aceite, tendo tido, algum tempo depois, a possibilidade de seguir para Lisboa para frequentar em 1954 a escola Arena, que era dirigida pelos toureiros Júlio Procópio, Augusto Gomes e Sebastião Saraiva.

Sempre com enormes dificuldades financeiras e com ajuda de algumas pessoas que se cotizavam em Vila Viçosa para lhe custearem as despesas em Lisboa e com a ajuda de uma tia que lhe concedeu alojamento, destacou-se com valor entre todos alunos e conseguiu em Junho de 1955 apresentar-se como aspirante a novilheiro na Praça de Santa Eulália e alcançou enorme êxito. Como novilheiro alternou muito com Amadeu dos Anjos e José Júlio. Apresentou-se pela primeira vez em Espanha na Praça de Olivença em 1956 frente a novilhos da ganadaria de Guardiola. Já com novo apoderado toureou em Sevilha em 1957 e teve um novo êxito. Uniformes crónicas taurinas a reconhecerem-lhe grande valor. Mais um português no toureio a pé, determinado e valentíssimo que aparecia ao lado das principais figuras. Frente a toiros da afamada ganadaria de Pablo Romero e tendo como testemunha Manolo Segura, recebeu a alternativa de matador em Setembro de 1958 em Cáceres, concedida por Cesar Girón. Depois muitos êxitos e colhidas em Espanha e América, teve um grande triunfo na Praça El Toreo no México. Alternou com os melhores matadores de toiros nas principais praças do mundo taurino. Ganhou o respeito dos aficionados, dos toureiros e dos empresários. Novamente em Espanha – onde José Trincheira mais gostava de tourear – foi gravemente colhido na Praça de La Linea del Concepcion em 1959. Admitiram que morria, mas voltou às arenas e sempre com determinação e enorme vontade.

Falou com o tal professor de Vila Viçosa dizendo que precisava do diploma da quarta classe para poder tirar a carta de condução. Explicou que era só para isso. Teve umas explicações apressadas. Fez um exame especial. Só ele. Com ditado e tudo. Passou!

Ganhou dinheiro, muito dinheiro. Auxiliou a família, divertiu-se, namorou muito e voltou a namorar. Comprou um carro blindado e com todos os requisitos que tinha sido na Presidência do Conselho…Um luxo.

-- Do Salazar, carago!

Confirmou a alternativa em Madrid em Agosto de 1966, sendo seu padrinho o matador José Luís Barreto.

Depois de casamento atribulado e demasiadamente prolongado por três anos com uma cantora, o divórcio e várias namoradas, resolveu suspender a vida de toureiro e foi para Angola onde teve diversas actividades mas conseguindo realizar algumas touradas em praças desmontáveis e ganhar muito dinheiro. Voltou a casar.

Com a revolução de 1974 em Lisboa e depois a independência de Angola e a confusão que se seguiu teve que regressar, tal como muitos milhares de retornados, numa situação dificílima. Conseguiu fazer a reaparição como toureiro e em 1976 o chamado “Leão do Alentejo” toureou no Campo Pequeno demonstrando o seu valor e garra e depois em algumas praças desmontáveis em diversos locais do país. O tempo foi passando. A idade era outra. Despediu-se do toureio em 1989.

Um toureiro assim, merecia uma outra despedida e o reconhecimento da aficion. Mas aconteceu simplesmente em praça desmontável, com poucos amigos. Quase esquecido.

Nasceu pobre, foi um homem rico e hoje vive com algumas dificuldades económicas mas feliz na sua actividade de pastor de ovelhas.

Este homem contou estas e outras facetas na sua vida no jantar que se realizou em 6 de Novembro de 2017 na Pousada dos Loios em Évora e foi um enorme prazer a Tertúlia Tauromáquica Eborense o ter recebido como convidado de honra. Excelente!

Quando terminou o jantar e na despedida disse:

-- Telefonei-me quando quiserem e a melhor hora é numa hora qualquer.

Olé José Trincheira! Olé Leão do Alentejo!

T.T.Eborense 6.11.2017.jpg

 

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