Barrete na mão por ser escolhido
Pelo cabo para a pega de caras
Com um olhar ao céu erguido
Agradecendo virtudes raras
Com o grupo na arena formado
Um forcado se destaca na frente
Chama o toiro com grito ousado
Começa o cite garboso e valente
Mostra-se, a figura marcando
Toiro nos braços recuando
Derrota o toiro com força medonha
Primeiro ajuda tão determinante
Toda a decisão se sobreponha
Com as segundas de rompante
Rabejador atento e decidido
Terceiras ajudas no momento
Num conjunto bem destemido
Arrojo, valor e luzimento
Alma e coragem portuguesa
Nas arenas tanta grandeza!
Manuel Peralta Godinho e Cunha
Abril de 2024
Depois d’uma tentativa
Chama o toiro com altivez
Com batida agressiva
Sai da córnea outra vez
Grupo forma serenamente
Com ética e saber estar
Cita o toiro novamente
Parando p’ra se mostrar
Nos lábios um sorriso
Três passos a mandar
Mais não é preciso
Bem recua a templar
Agora assim fechado
Em pega emotiva
Muito bem ajudado
Na terceira tentativa
Meninas lançam rosas
Cravos e outras flores
Misturas bem formosas
Lindas com diversas cores
Manuel Peralta Godinho e Cunha
Janeiro de 2024
Se no toureio o touro é enganado
A cavalo ou a pé sempre desviado
Há nas tauromaquias algo diferente
Figuras nas arenas que se põem em frente
Não se afastam e enfrentam com coragem
Em Portugal de pé, altiva, a forcadagem
Em Espanha, a cavalo, resoluto, o picador
Se o forcado recebe nos braços com ardor
O toiro que acomete de praça a praça
O picador aguenta a investida com raça
Valor, pundonor, saber demonstrado
Nas arenas pelo picador e forcado
Manuel Peralta Godinho e Cunha
Julho de 2023
Toiro sai, no capote acomete
Levanta poeira na passagem
Quando recarga a lide promete
Alguém o cita dando vantagem
Os olhares no toiro reparam
Misto de coragem e ansiedade
Sons dobrados da música soaram
Num “pasodoble” de verdade
O cavaleiro a lide termina
Saltam para a arena forcados
Silêncio profundo o cite origina
Passos firmes com vigor marcados
Um se destaca com garbo na frente
Em tentativa corajosa, mas gorada
Com os derrotes o grupo sente
Rostos crispados, temor da cornada
A coragem ultrapassa com valor
Agiganta-se na alma o coração
Pega realizada com destemor
Aplausos maiores e comoção
Manuel Peralta Godinho e Cunha
Julho de 2023
Para as gentes d’outras paragens
De origens não nossas, diferentes
Ficam estarrecidos com imagens
Nunca vistas, tão transcendentes
Para nós uma pega simplesmente
Natural o forcado se mostrar
Chamar o toiro bem de frente
A marcar a figura, se destacar
Saber alegrar a mandar também
Esperar e recuar templando
No toiro fechado como convém
Ajudas atrás atentas esperando
Grupo de Évora assim em praça
Com dignidade, ética e raça
Manuel Peralta Godinho e Cunha
Março de 2023
Largar o toiro depois da pega
Quando o rabejador fica sozinho
Tem mestria ninguém o nega
Cada um por seu caminho
Todos ao mesmo tempo sair
Para o toiro sabendo olhar
Abrindo em leque e a sorrir
E antes das tábuas saltar
Confiar sempre no rabejador
Seja o toiro qualquer que for
Manuel Peralta Godinho e Cunha
Fevereiro de 2023
Numa pega de caras, figura de beleza
Forcado bem fechado e na certeza
A pega é timbre dos amadores
Que nas arenas parecem superiores
Não, na verdade a arte assim permite
Parar, mandar e templar é que admite
Trazer para dentro do grupo ao ser pegado
Toiro imponente que a cavalo foi lidado
E quem viu esta pega exemplar
Ficou gravada a imagem a provar
A pega é bem mais do que destreza
É valor transformado em pureza
Manuel Peralta Godinho e Cunha
Novembro de 2022
-- Na foto: Pega de Hugo Mineiro (Grupo de Forcados do Aposento da Moita)
Praça de Toiros Monumental de Santarém
Na pátria do toureio acavalo o suporte é sem favor
O forcado amador, pela coragem, brio e destemor
O último romântico da Festa que quer pegar apenas
E dele são sempre as grandes emoções nas arenas
É um valor nacional esquecido por uns mandantes
Que longe do povo, na honra, estão tão distantes
Porém é o forcado que deixa o povo encantado
D’outros países que mal acreditam no que viram
No regresso nem sabem descrever o que sentiram
Aos amigos tão admirados do que é um toiro bravo
Sem perceberem ou entenderem porque o forcado
Repete o cite por vezes até o toiro estar pegado
Manuel Peralta Godinho e Cunha
Agosto de 2022
--Na foto uma pega de caras de Dinis Caeiro. Grupo de Forcados Amadores de Évora - 2018
Manuel Rovisco Pais (Amadores de Évora)
Na pega de caras, pode o forcado marcar
Durante o cite os tempos de bem lidar
Definidos por Belmonte na arte do toureio
E se assim fizer antes de tudo e primeiro
O forcado se mostrar bem ao toiro e parar
Se provocar a investida, alegrando e mandar
Se recuar trazendo o toiro para o Grupo
No gesto profundo e toureiro de templar
Nessa exaltação mística profunda, serena
Enorme, muito grande em hora tão pequena
É esse o cite tão completo e muito profundo
De saber pegar, nas arenas de todo o mundo
“Parar, Mandar e Templar” podem ser e são
Nesta arte portuguesa, símbolos de coração
Na ética e saber estar do forcado amador
Os tais momentos de toureio verdadeiro
Na pega de caras, num forcado toureiro!
Manuel Peralta Godinho e Cunha
Agosto de 2022
Francisco Borges (Amadores de Montemor)
No “Diccionário Ilustrado de Términos Taurinos” de Luis Nieto Manjón, escritor e crítico taurino, define-se a “sorte” como “a acção do toureio que, valendo-se do engano como a capa, muleta ou mesmo o corpo, faz com que o toiro passe próximo dele e engana a rês”.
Não se pode aceitar, completamente, esta definição porque não é integralmente verdadeira para o caso espanhol no que se refere ao picador e também no caso português no que se refere ao forcado.
O picador na sorte de varas cita e recebe o toiro parado, não tendo o toiro mais do que se arrancar em linha recta e meter a cabeça a direito.
Na pega de caras, quando bem executada, o forcado marca os tempos do toureio durante o cite: manda, pára e templa. Mas, na pega de caras, não há engano para que o toiro passe próximo. O forcado ao fechar-se tem o toiro nos seus braços, no peito, junto ao coração.
Manuel Peralta Godinho e Cunha